Curvatura Peniana Adquirida: Diagnóstico e Tratamentos Baseados em Evidências

Doença de Peyronie

Guia completo sobre a Doença de Peyronie: fases da doença, diagnóstico, tratamento conservador (CCH/Xiaflex, tração, injeções intralesionais), cirurgia (plicatura, enxerto, prótese peniana). Baseado nas guidelines EAU 2025 e AUA.

Doença de Peyronie — tratamento e correção da curvatura peniana

O Que é a Doença de Peyronie?

A Doença de Peyronie (DP) é uma condição adquirida caracterizada pela formação de uma placa fibrótica na túnica albugínea do pênis, resultando em curvatura peniana, dor durante a ereção, possível encurtamento do pênis e, frequentemente, disfunção erétil e sofrimento psicológico significativo.

A prevalência varia de 0,7% a 20,3% dependendo da metodologia e população estudada, com incidência de 19,6-23 casos por 100.000 homens/ano. A idade típica de apresentação é entre 50-60 anos, embora possa ocorrer em homens mais jovens (1,5-16,9% dos casos em menores de 40 anos). Estudos recentes sugerem que a doença é significativamente subdiagnosticada.

O mecanismo mais aceito envolve microtrauma repetitivo durante a atividade sexual, desencadeando uma cascata inflamatória com deposição excessiva de colágeno na túnica albugínea. A placa resultante reduz a elasticidade local, causando curvatura durante a ereção. A DP faz parte do espectro das doenças fibromatosas, com associação frequente à contratura de Dupuytren (mãos) e doença de Ledderhose (pés).

0,7-20%

Prevalência estimada

50-60

Idade típica (anos)

30-70%

Associação com DE

10-40%

Associação com Dupuytren

Fases da Doença

Distinguir entre fase aguda e crônica é fundamental — as opções de tratamento são diferentes em cada fase.

Fase Aguda (Inflamatória)

6-18 meses após início dos sintomas

  • Dor peniana durante a ereção (sintoma definidor)
  • Curvatura em evolução progressiva
  • Placa em formação — pode não ser palpável inicialmente
  • Possível aparecimento de novas deformidades

Conduta: Foco em controle da dor, prevenção de progressão. Tratamento conservador é a regra. Cirurgia NÃO indicada.

Fase Crônica (Estável)

Após estabilização: ≥ 3 meses sem dor e sem mudança na curvatura

  • Dor geralmente resolvida ou mínima
  • Curvatura estabilizada (não muda mais)
  • Placa palpável, podendo estar calcificada
  • Disfunção erétil pode estar presente (30-70%)

Conduta: Opções de tratamento intralesional (CCH) ou cirúrgico para curvaturas funcionalmente significativas.

Investigação Diagnóstica

Avaliação sistemática em 4 etapas — EAU Guidelines 2025

1

História Clínica Detalhada

Recomendação Forte — EAU 2025

Anamnese completa incluindo início e duração dos sintomas, presença de dor, grau de deformidade, função erétil e impacto na vida sexual.

  • Duração dos sintomas e evolução temporal
  • Presença e intensidade da dor na ereção
  • Mudanças recentes na curvatura (ativa vs. estável)
  • Função erétil basal (IIEF-5 ou SHIM)
  • Impacto psicossocial e na relação conjugal
  • Questionário PDQ (Peyronie's Disease Questionnaire)
2

Exame Físico

Recomendação Forte — EAU 2025

Avaliação genital completa com palpação do pênis e pesquisa de doenças fibromatosas associadas.

  • Palpação da placa: localização, tamanho, consistência
  • Medida do comprimento peniano (esticado)
  • Pesquisa de Dupuytren (mãos) e Ledderhose (pés)
  • Avaliação do prepúcio e meato uretral
  • Nota: tamanho da placa NÃO se correlaciona com grau de curvatura
3

Avaliação Objetiva da Curvatura

Recomendação Forte — EAU 2025

Documentação objetiva do grau e direção da curvatura, essencial para planejamento terapêutico.

  • Auto-fotografia em ereção (método mais prático)
  • Teste com dispositivo de vácuo (VED)
  • Injeção intracavernosa (método mais preciso)
  • Documentar: grau, direção (dorsal, ventral, lateral), deformidade em ampulheta
4

Avaliação da Função Erétil

Recomendação Forte — EAU 2025

Fundamental para a escolha terapêutica. Disfunção erétil coexiste em 30-70% dos pacientes.

  • Questionário IIEF-5 (International Index of Erectile Function)
  • US Doppler peniano: indicado se cirurgia com enxerto planejada
  • Avaliar resposta a iPDE5 (sildenafila, tadalafila)
  • DE vascular vs. psicogênica vs. mista

Tratamento Conservador

Opções não cirúrgicas baseadas em evidências — EAU 2025 e AUA

Terapia Oral

Pentoxifilina

Recomendado

Mecanismo: Inibidor de PDE, anti-inflamatório e antifibrótico

Indicação: Fase aguda — pode reduzir progressão da placa e dor

EAU 2025

Pode ser oferecida na fase aguda (Grau B, NE 2)

AUA

Pode oferecer (Condicional, Grau C)

Vitamina E

Não recomendado

Mecanismo: Antioxidante

Indicação: Historicamente utilizada, sem evidência de eficácia

EAU 2025

Não recomendada (Grau C, NE 1)

AUA

Não deve oferecer (Forte, Grau C)

Potaba (KPAB)

Não recomendado

Mecanismo: Propriedades antifibróticas

Indicação: Historicamente utilizada, evidência limitada

EAU 2025

Não recomendada (Grau C, NE 1)

AUA

Não deve oferecer (Forte, Grau C)

Colchicina

Não recomendado

Mecanismo: Anti-inflamatório e antifibrótico

Indicação: Historicamente utilizada, evidência limitada

EAU 2025

Não recomendada (Grau C, NE 2)

AUA

Não deve oferecer (Forte, Grau C)

Injeções Intralesionais

Colagenase Clostridium Histolyticum (CCH / Xiaflex)

Recomendado

Mecanismo: Quebra o colágeno da placa fibrótica

Indicação: Fase crônica estável, curvatura 30-90°, placa palpável, função erétil preservada

EAU 2025

Deve ser oferecida (Grau A, NE 1)

AUA

Deve oferecer (Forte, Grau B)

  • Protocolo: até 4 ciclos de 2 injeções (8 injeções no total)
  • Modelagem peniana entre os ciclos
  • Redução média de curvatura: 17-34%
  • Contraindicações: fase aguda, placas calcificadas, curvatura dorsal com risco uretral

Verapamil Intralesional

Recomendado

Mecanismo: Bloqueador de canal de cálcio — altera metabolismo fibroblástico

Indicação: Fases aguda e crônica

EAU 2025

Pode ser considerado (Grau B, NE 2)

AUA

Pode oferecer (Condicional, Grau C)

Interferon Alfa-2b

Recomendado

Mecanismo: Efeitos antifibróticos e imunomoduladores

Indicação: Fases aguda e crônica

EAU 2025

Pode ser considerado (Grau B, NE 2)

AUA

Pode oferecer (Condicional, Grau C)

Terapias Mecânicas e Adjuvantes

Terapia de Tração Peniana (PTT)

Recomendado

Mecanismo: Estiramento mecânico para remodelação da túnica albugínea

Indicação: Fase crônica — isolada ou adjuvante ao CCH

EAU 2025

Deve ser oferecida na fase crônica, especialmente com CCH (Grau B, NE 2)

AUA

Pode oferecer (Condicional, Grau C)

Ondas de Choque (Li-ESWT)

Não recomendado

Mecanismo: Microtrauma, angiogênese, modificação do colágeno

Indicação: Apenas para DOR associada à DP. NÃO indicada para curvatura.

Não reduz curvatura

EAU 2025

Para dor: pode ser considerada (Grau A, NE 1). Para curvatura: NÃO recomendada (Grau C)

AUA

Para curvatura: não deve oferecer (Forte, Grau C). Para dor: pode oferecer (Condicional, Grau C)

Dispositivo de Vácuo (VED)

Recomendado

Mecanismo: Estiramento mecânico e promoção do fluxo sanguíneo

Indicação: Terapia adjuvante, especialmente pós-cirurgia ou com injeções intralesionais

EAU 2025

Pode ser considerado como adjuvante (Grau B, NE 3)

AUA

Pode oferecer como adjuvante (Condicional, Grau C)

Inibidores de PDE5 (Sildenafila, Tadalafila)

Recomendado

Mecanismo: Melhora da função erétil

Indicação: Para disfunção erétil associada à DP — NÃO trata a curvatura diretamente

EAU 2025

Deve ser oferecido para DE associada à DP (Grau A, NE 1)

AUA

Deve oferecer para DE + DP (Forte, Grau B)

Algoritmo de Decisão Cirúrgica

Pré-requisito: doença estável por ≥ 3-6 meses, curvatura funcionalmente significativa — EAU 2025 / AUA

Curvatura < 60° + Comprimento adequado + Ereção boa
Plicatura (Nesbit / 16-dot)
Curvatura > 60° ou Ampulheta + Ereção boa
Incisão de placa + Enxerto
Curvatura + Disfunção Erétil refratária
Prótese Peniana Inflável (IPP)

Opções Cirúrgicas

Três abordagens principais, escolhidas conforme grau de curvatura e função erétil

Impacto Psicossocial

A Doença de Peyronie vai além da curvatura

Muitos homens com DP experimentam sofrimento emocional significativo, sintomas depressivos e dificuldades no relacionamento. O impacto psicológico é frequentemente subestimado.

54%

relatam dificuldades no relacionamento

48%

apresentam sintomas depressivos

81%

relatam impacto na autoimagem masculina

O acompanhamento psicológico e a comunicação aberta com o parceiro(a) são componentes importantes do tratamento. Não hesite em discutir esses aspectos com seu urologista.

Perguntas Frequentes

Dúvidas comuns sobre a Doença de Peyronie

Referências

  1. 1.Salonia A et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health — Penile Curvature. European Association of Urology, 2025.
  2. 2.Nehra A et al. Peyronie's Disease: AUA Guideline. J Urol. 2015;194(3):745-753. doi:10.1016/j.juro.2015.05.098
  3. 3.Ziegelmann MJ et al. Peyronie's Disease: AUA Guideline Amendment. J Urol. 2022;207(3):566-573. doi:10.1097/JU.0000000000002420
  4. 4.Gelbard M et al. Clinical efficacy, safety and tolerability of collagenase Clostridium histolyticum for the treatment of Peyronie disease in 2 large double-blind, randomized, placebo controlled phase 3 studies. J Urol. 2013;190(1):199-207.
  5. 5.Levine LA, Larsen SM. Surgery for Peyronie's disease. Asian J Androl. 2013;15(1):27-34. doi:10.1038/aja.2012.92
  6. 6.Ralph D et al. The management of Peyronie's disease: evidence-based 2010 guidelines. J Sex Med. 2010;7(7):2359-2374.
  7. 7.Mulhall JP et al. Subjective and objective analysis of the prevalence of Peyronie's disease in a population of men presenting for prostate cancer screening. J Urol. 2004;171(6 Pt 1):2350-2353.
  8. 8.Wein AJ, Kavoussi LR, Partin AW, Peters CA. Campbell-Walsh-Wein Urology. 13th ed. Elsevier; 2024. Chapter 73: Peyronie's Disease.
  9. 9.Hellstrom WJ et al. Implants, mechanical devices, and vascular surgery for erectile dysfunction. J Sex Med. 2010;7(1 Pt 2):501-523.
  10. 10.Chung E et al. Penile prosthesis implantation for the management of Peyronie's disease. Transl Androl Urol. 2017;6(Suppl 5):S815-S823.

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