A disfunção erétil (DE) é definida como a incapacidade persistente de obter e/ou manter uma ereção suficiente para uma atividade sexual satisfatória. Afeta cerca de 52% dos homens entre 40-70 anos em algum grau (Massachusetts Male Aging Study), com prevalência aumentando significativamente com a idade — de 5-10% aos 40 anos para 40-70% aos 70 anos.
A DE é uma condição complexa e multifatorial — raramente tem uma causa única. Na maioria dos casos, há uma combinação de fatores vasculares, hormonais, neurológicos, psicológicos e medicamentosos. Mais importante: a DE pode ser o primeiro sinal de doença cardiovascular, precedendo eventos como infarto em 3-5 anos. Por isso, todo homem com DE deve ter uma avaliação cardiovascular completa.
O tratamento é individualizado e escalonado, baseado na decisão compartilhada entre médico e paciente. Existem opções para todos os graus de gravidade, desde mudanças de estilo de vida até a prótese peniana, com excelentes taxas de sucesso.
dos homens 40-70 anos afetados
MMAS
antes de evento cardiovascular
EAU 2025
têm causa orgânica
Campbell 13th
respondem a algum tratamento
AUA 2024
Causas da Disfunção Erétil
A DE é multifatorial — a maioria dos pacientes tem mais de uma causa contribuindo. Identificar todas as causas é essencial para um tratamento eficaz.
Diagnóstico
Anamnese detalhada
Questionário IIEF-5 (International Index of Erectile Function), história sexual, início e progressão dos sintomas, fatores de risco cardiovascular, medicamentos em uso, saúde mental, qualidade do relacionamento. Diferenciar DE de outros distúrbios (ejaculação precoce, diminuição da libido, anorgasmia).
Exame físico
Avaliação cardiovascular (PA, pulsos periféricos), exame genital (tamanho testicular, placas de Peyronie, fimose), toque retal (próstata), sinais de hipogonadismo (ginecomastia, distribuição de gordura, pelos).
Exames laboratoriais
Glicemia de jejum / HbA1c, perfil lipídico, testosterona total (manhã), PSA (>40 anos), hemograma, função renal e hepática. Se testosterona baixa: LH, FSH, prolactina, SHBG.
Exames especializados (se indicados)
Ultrassom peniano com Doppler (avalia fluxo arterial e drenagem venosa), tumescência peniana noturna (diferencia orgânica de psicogênica), avaliação psicológica/psiquiátrica, avaliação cardiológica (teste ergométrico, ecocardiograma).
DE como Marcador Cardiovascular
A disfunção erétil e a doença cardiovascular compartilham os mesmos fatores de risco e o mesmo mecanismo — a disfunção endotelial. As artérias penianas (1-2mm) são menores que as coronárias (3-4mm), por isso são afetadas primeiro. Todo homem com DE, especialmente sem causa psicogênica óbvia, deve ser avaliado para risco cardiovascular. A DE é considerada um equivalente de doença cardiovascular pela Princeton Consensus Conference.
Opções de Tratamento
O tratamento é escalonado e individualizado, baseado na decisão compartilhada entre médico e paciente. A escolha considera a causa, gravidade, preferências do paciente e do casal.
Mudanças de Estilo de Vida
Base de todo tratamento — deve ser associada a qualquer outra terapia.
Perda de peso (5-10% melhora a DE em obesos), exercício aeróbico regular (150 min/sem), cessação do tabagismo, redução do álcool, controle de diabetes e hipertensão, melhora do sono, manejo do estresse. Dieta mediterrânea associada a menor risco de DE.
Eficácia
Melhora de 30-40% na função erétil em homens obesos que perdem peso. Exercício regular melhora DE em 40% dos casos.
Considerações
Deve ser mantida a longo prazo. Benefícios cardiovasculares adicionais. Pode ser suficiente em casos leves.
Inibidores da PDE5 (Sildenafila, Tadalafila, etc.)
Medicamentos orais que facilitam a ereção ao aumentar o fluxo sanguíneo peniano.
Sildenafila (Viagra®): 50-100mg, 1h antes, duração 4-6h. Tadalafila (Cialis®): 10-20mg sob demanda ou 5mg diário, duração até 36h. Vardenafila (Levitra®): 10-20mg, 30min antes, duração 4-6h. Avanafila (Stendra®): 100-200mg, 15min antes, duração 6h. Todos necessitam de estímulo sexual para funcionar — não causam ereção automática.
Eficácia
Eficácia de 60-80% na população geral. Menor em diabéticos (50-60%) e pós-prostatectomia (15-40%). Tadalafila diária: melhora também os sintomas urinários (LUTS/HPB).
Considerações
Contraindicados com nitratos (risco de hipotensão grave). Efeitos colaterais: cefaleia, rubor facial, congestão nasal, dispepsia. Tadalafila diária: opção para uso contínuo sem planejamento.
Terapia Psicossexual
Fundamental quando há componente psicogênico — pode ser isolada ou combinada com medicação.
Terapia cognitivo-comportamental (TCC) focada em ansiedade de desempenho, dessensibilização, técnicas de mindfulness e exercícios de foco sensorial (Masters & Johnson). Terapia de casal quando há fatores relacionais. Tratamento de depressão e ansiedade subjacentes.
Eficácia
Eficácia de 50-80% para DE psicogênica. Melhor resultado quando combinada com iPDE5. Essencial para quebrar o ciclo de ansiedade de desempenho.
Considerações
Requer profissional especializado (psicólogo/sexólogo). Pode ser combinada com qualquer outra linha de tratamento.
Injeção Intracavernosa (Alprostadil / Trimix)
Injeção de medicamento vasodilatador diretamente no corpo cavernoso do pênis.
Alprostadil (prostaglandina E1): 5-40mcg. Trimix (papaverina + fentolamina + alprostadil): combinação mais potente. O paciente aprende a se autoinjetar com agulha ultrafina (30G) na base lateral do pênis. Ereção em 5-15 minutos, duração 30-60 minutos.
Eficácia
Eficácia de 85-95% — a mais alta entre todos os tratamentos não cirúrgicos. Funciona mesmo quando iPDE5 falham.
Considerações
Risco de priapismo (ereção >4h — emergência). Dor local (10-20%). Fibrose peniana com uso prolongado. Necessita treinamento para autoinjeção. Dose deve ser titulada em consultório.
Dispositivo de Vácuo (Vacuum)
Dispositivo mecânico que cria vácuo ao redor do pênis, atraindo sangue e produzindo ereção.
Um cilindro é colocado sobre o pênis e uma bomba (manual ou elétrica) cria pressão negativa, atraindo sangue para os corpos cavernosos. Um anel constritor é colocado na base do pênis para manter a ereção por até 30 minutos.
Eficácia
Eficácia de 60-70% em produzir ereção suficiente para penetração. Satisfação do casal: 50-60%.
Considerações
Ereção pode parecer 'não natural' (pênis frio, pivotante na base). Anel não deve permanecer >30 minutos. Pode causar equimose. Sem contraindicações medicamentosas.
Ondas de Choque de Baixa Intensidade (Li-ESWT)
Terapia com ondas de choque que estimula a neovascularização (formação de novos vasos) no pênis.
Sessões de 15-20 minutos, 1-2x/semana, por 6-12 sessões. Ondas de choque de baixa energia são aplicadas no corpo do pênis e crura. Mecanismo: estimula fatores de crescimento vascular (VEGF), promovendo angiogênese e regeneração do endotélio.
Eficácia
Evidência moderada. Melhora do IIEF em 2-4 pontos. Pode restaurar resposta a iPDE5 em pacientes que não respondiam. Melhor resultado em DE vasculogênica leve a moderada.
Considerações
Ainda considerada experimental por algumas guidelines. Resultados variáveis. Não invasiva e sem efeitos colaterais significativos. Custo elevado.
Prótese Peniana
Implante cirúrgico de prótese nos corpos cavernosos — tratamento definitivo para DE refratária.
Prótese inflável (3 peças): cilindros nos corpos cavernosos, reservatório no abdome e bomba no escroto. O paciente aciona a bomba para inflar os cilindros, produzindo ereção rígida. Desinflação é igualmente simples. Prótese maleável (semirrígida): mais simples, sem mecanismo hidráulico — o pênis é posicionado manualmente.
Eficácia
Satisfação >90% (pacientes e parceiras) — maior taxa de satisfação entre todos os tratamentos de DE. Taxa de revisão: 5-10% em 10 anos. Durabilidade: 15-20 anos (inflável moderna).
Considerações
Cirurgia irreversível — destrói o tecido erétil natural. Riscos: infecção (1-3%), erosão, falha mecânica. Indicada quando todas as outras opções falharam ou são inaceitáveis. Pode ser indicada como primeira linha em casos selecionados (pós-prostatectomia, Peyronie grave).
Decisão Compartilhada
O tratamento da disfunção erétil é uma decisão conjunta entre médico e paciente. Não existe um tratamento único que seja o melhor para todos. A escolha leva em conta:
Agende uma consulta para uma avaliação completa e individualizada. Com o tratamento adequado, mais de 95% dos homens com DE podem ter uma vida sexual satisfatória.
Referências
- Salonia A, et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. European Association of Urology, 2025.
- Burnett AL, et al. AUA Guideline: Erectile Dysfunction. American Urological Association, 2024.
- Partin AW, et al. Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition. Elsevier, 2024. Chapters 62-68.
- Feldman HA, et al. Impotence and its medical and psychosocial correlates: results of the MMAS. J Urol. 1994;151(1):54-61.
- Nehra A, et al. The Princeton III Consensus recommendations for the management of ED and cardiovascular disease. Mayo Clin Proc. 2012;87(8):766-78.
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- Hatzimouratidis K, et al. Pharmacotherapy for erectile dysfunction: recommendations from the Fourth International Consultation for Sexual Medicine. J Sex Med. 2016;13(4):465-88.
- Mulhall JP, et al. Penile rehabilitation following radical prostatectomy. J Sex Med. 2013;10(1):34-42.
