Os cálculos renais (pedras nos rins) afetam cerca de 12% dos homens e 6% das mulheres ao longo da vida, com pico de incidência entre 30 e 60 anos. A prevalência vem aumentando globalmente, associada a mudanças dietéticas, obesidade e aquecimento climático. Sem medidas preventivas, a taxa de recorrência é de 50% em 5-10 anos.
O tratamento moderno dos cálculos renais é predominantemente minimamente invasivo. A escolha da técnica depende do tamanho, localização, composição do cálculo e das características do paciente. As opções vão desde a litotripsia extracorpórea (LECO) até a nefrolitotripsia percutânea (NLPC) para cálculos grandes e complexos, passando pela ureteroscopia com laser — a técnica mais versátil e frequentemente utilizada.
Tratamentos Minimamente Invasivos

Ureteroscopia com litotripsia a laser — o ureteroscópio acessa o rim pela uretra para fragmentar o cálculo

Cateter duplo J posicionado entre o rim e a bexiga para garantir drenagem urinária
Opções de Tratamento
LECO
Litotripsia Extracorpórea por Ondas de Choque
Procedimento não invasivo que fragmenta cálculos renais por ondas de choque aplicadas externamente, sem necessidade de incisão ou introdução de instrumentos. Os fragmentos são eliminados naturalmente pela urina.
Ureterorrenolitotripsia Flexível (URS-F)
Ureteroscopia Flexível com Litotripsia a Laser
Procedimento endoscópico que utiliza um ureteroscópio flexível ultrafino introduzido pela uretra para acessar o rim e fragmentar cálculos com laser holmium ou thulium. É a técnica mais versátil para cálculos renais de até 20mm e cálculos ureterais de qualquer localização.
Ureterolitotripsia Semirrígida
Ureteroscopia Semirrígida com Litotripsia a Laser
Procedimento endoscópico com ureteroscópio semirrígido para tratamento de cálculos ureterais, especialmente os localizados no ureter médio e distal. Utiliza laser holmium ou pneumático para fragmentação.
Nefrolitotripsia Percutânea (NLPC)
Cirurgia Renal Percutânea — Standard, Mini-Perc e Micro-Perc
Procedimento que acessa o rim através de um pequeno orifício na pele da região lombar para fragmentar e remover cálculos grandes (>20mm), coraliformes ou complexos. É o padrão-ouro para cálculos renais grandes e oferece a maior taxa stone-free em um único procedimento.
O Cateter Duplo J
O que é?
O cateter duplo J (ou stent ureteral) é um tubo flexível de silicone ou poliuretano com extremidades em formato de "J" que é posicionado internamente entre o rim e a bexiga. Sua função é garantir a drenagem da urina do rim para a bexiga, prevenindo obstrução por fragmentos de cálculo, edema ou coágulos após procedimentos urológicos.
Por que é necessário?
Após a ureteroscopia com laser, o ureter pode apresentar edema (inchaço) que dificulta a passagem da urina. O cateter duplo J mantém o ureter aberto, previne a obstrução e permite que fragmentos residuais sejam eliminados. Também é utilizado em situações de emergência para desobstruir o rim em casos de cólica renal com infecção (sepse urinária).
Quanto tempo permanece?
Geralmente 1 a 4 semanas, dependendo do procedimento realizado e da complexidade do caso. É fundamental não ultrapassar o prazo de retirada, pois o cateter pode calcificar e tornar a remoção significativamente mais difícil.
Como é retirado?
A retirada é realizada no consultório por cistoscopia — um procedimento rápido (1-2 minutos) com anestesia local (gel de lidocaína). Um cistoscópio fino é introduzido pela uretra e uma pinça remove o cateter sob visão direta.

Posicionamento do cateter duplo J no trato urinário
Sintomas comuns com o cateter:
- • Urgência e frequência urinária aumentada
- • Desconforto em flanco ao urinar
- • Sangue na urina (hematúria leve)
- • Desconforto na bexiga ao final da micção
Estes sintomas são normais e desaparecem após a retirada.
Prevenção de Cálculos Renais
A prevenção é fundamental para evitar recorrência. Medidas dietéticas e comportamentais simples podem reduzir o risco de novos cálculos em até 50%.
Hidratação
Ingerir 2,5 a 3 litros de líquidos por dia para manter débito urinário >2,5L/dia. A urina deve estar sempre clara (cor de palha). A hidratação é a medida isolada mais eficaz na prevenção de recorrência (reduz em ~40%).
EAU Guidelines 2025
Dieta balanceada
Reduzir sódio (<5g/dia de sal), proteína animal (0,8-1g/kg/dia) e açúcar refinado. Manter ingestão normal de cálcio (1000-1200mg/dia) — NÃO restringir cálcio, pois isso aumenta a absorção intestinal de oxalato. Aumentar frutas, verduras e fibras.
EAU/AUA Guidelines 2025
Citrato
Aumentar ingestão de citrato (limonada, suco de laranja natural) — o citrato é o principal inibidor da cristalização de cálcio. Em casos refratários, suplementação com citrato de potássio pode ser prescrita.
EAU Guidelines 2025
Peso e exercício
Manter IMC <25. Obesidade e síndrome metabólica aumentam o risco de cálculos de ácido úrico e oxalato de cálcio. Exercício regular moderado reduz o risco.
Campbell-Walsh-Wein 13th Ed.
Avaliação metabólica
Após o primeiro episódio de cálculo, especialmente em pacientes de alto risco ou recorrentes, uma avaliação metabólica completa (urina de 24h, sangue) é essencial para identificar distúrbios como hipercalciúria, hiperuricosúria, hipocitratúria e hiperoxalúria, permitindo tratamento direcionado.
EAU/AUA Guidelines 2025
Acompanhamento
Cálculos renais têm taxa de recorrência de 50% em 5-10 anos sem prevenção. Com medidas adequadas, essa taxa cai para 10-15%. Acompanhamento com exames de imagem periódicos é fundamental.
EAU Guidelines 2025

Medidas dietéticas para prevenção de cálculos renais
Como escolhemos o tratamento?
Tratamento conservador (expulsivo) — hidratação + alfa-bloqueador. Eliminação espontânea em 68-98% dos casos.
URS (ureteroscopia) ou LECO, dependendo da localização. Alfa-bloqueador como terapia expulsiva pode ser tentado para cálculos ureterais distais de 5-10mm.
URS flexível com laser (primeira linha para cálculos renais). LECO como alternativa para cálculos <15mm de baixa densidade.
NLPC (primeira linha — EAU 2025). URS flexível em dois tempos (staged) como alternativa. LECO não recomendada.
NLPC (padrão-ouro). Pode necessitar de múltiplos acessos ou combinação com URS flexível (ECIRS — Endoscopic Combined Intrarenal Surgery).
Referências
- Türk C, et al. EAU Guidelines on Urolithiasis. European Association of Urology, 2025.
- Assimos D, et al. AUA/Endourology Society Guideline: Surgical Management of Stones. American Urological Association, 2025.
- Partin AW, et al. Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition. Elsevier, 2024. Chapters 90-100.
- Ziemba JB, Matlaga BR. Epidemiology and economics of nephrolithiasis. Investig Clin Urol. 2017;58(5):299-306.
- Pearle MS, et al. Medical management of kidney stones: AUA Guideline. J Urol. 2014;192(2):316-24.
- Sorokin I, et al. Epidemiology of stone disease across the world. World J Urol. 2017;35(9):1301-1320.
